CONTO: INCONDICIONAL CONDICIONADO

HOMEM ANGUSTIADO.jpg

<a href=”http://br.freepik.com/fotos-vetores-gratis/madeira”>Madeira fotografia desenhado por Jcomp – Freepik.com</a>  

Ainda vejo a toalha da mesa flutuando, em movimento leve feito paraquedas, até pousar mal assentada sobre o tampo de fórmica. E logo suas mãos deslizavam rápidas e eficientes sobre o tecido, para dar-lhe o bom assentamento e sair-se bem com a fruteira.

Suas mãos… Eu costumava trazer seu corpo junto ao meu de forma bruta, impondo força e condições, e ela me devolvia com a sensualidade de suas mãos sobre o meu peito, para depois trazer uma delas, quase sempre a direita, espalmada sobre o meu rosto. Dedilhava sobre minha testa, redesenhava meu rosto e propunha ordem ao meu caos com seu jeito de amar incondicional.

Ela chegava a minha casa sempre à noite às sextas-feiras e ficava comigo até segunda de manhã. Eu nunca havia admitido, nem pra mim mesmo, mas eu ansiava calado pelas sextas-feiras. A casa, pelo meu descaso, a recebia sempre em desordem e desleixo. E ela lhe retribuía sorrindo. Sempre sorrindo… Sorria por ter muito o que fazer, sorria por ter muito o que amar, sorria por ter muita entrega. E eu não tenho certeza, mas agora começo a desconfiar que o melhor que ela me deu foi o seu sorriso. Nos meus momentos mais amargos, quando o mau humor ficava de mau humor comigo mesmo, eu olhava-a com desprezo, muito embora estivesse muito interessado em entender a sua capacidade de amar:

– É por demais servil! – Dizia-lhe nestas horas – A sua servidão me irrita profundamente…

Também não tenho certeza, mas começo a desconfiar que o seu sorriso em retribuição ao meu insulto não era irônico: era um sinal natural de sua supremacia. O que era alvejante!

A verdade era que todos os meus insultos caíam por terra e eu acabava por ficar com um problema maior ainda: ela os ignorava ou com um sorriso ou com seu silêncio.

– Então, o problema deve estar em mim mesmo… Eu sou o louco, é isto o que quer dizer?

Ela olhava-me com ar tranqüilo e respondia:

– Mas eu não lhe disse uma só palavra!

Quebrei a cabeça por esta mulher! Deus de Abraão, como quebrei… Normalmente, bebia às segundas à tardinha por achar que estava de saco cheio dela! E eu não tenho certeza, mas começo a desconfiar que se eu bebia era porque estava vazio por não tê-la por perto até sexta-feira, quando ela retornaria sorrindo.

Aos sábados de manhã, quando ela abria a janela do quarto, o cheiro de amor contido nele esvaía pelo quintal, onde uma trepadeira florida devia lhe dar bom dia… Eu não tenha certeza, mas acho mesmo que a trepadeira deveria falar-lhe, porque ao virar-se pra mim, estirado e extasiado na cama depois de sua prova de amor, ela parecia sorrir mais ainda!

Aquela era uma mulher de poucas palavras. E eu a julgava sem opinião… Começo a ter comigo, agora, que ela falava pouco e dizia muito. Seu silêncio me dizia às vezes que eu era um tolo… Mas a minha gritaria interior era tamanha que eu não ouvia o seu silêncio. Boa de guerra, isto é o que ela era! Eu me utilizava de um arsenal de guerra devastador e ela saía sempre ilesa! Era sempre assim: eu entrava em campo com canhão e bombas de alto alcance e lá estava ela… ora, essas: nada numa mão e nada na outra! Então, com um risinho vadio, eu iniciava aquela artilharia verbal. De olhos cerrados, achava ter feito um grande estrago… Pelo barulho das minhas bombas, não deve ter sobrado nadica de nada! Mas, aos poucos, à medida que a poeira da minha verborragia baixava e a luz chegava aos meus olhos, via-a na minha frente com seu risinho sábio.

Em volta de tudo isto, em volta dela mesma, todas as coisas em seu devido lugar. Apesar das bombas, a casa com ela não tinha pó, as janelas estavam sempre abertas, o capacho da porta da sala me impunha respeito. Ainda no sábado, depois do amor e antes do almoço, eu corria pra cerveja gelada da padaria. Na volta, ao abrir a porta da minha própria casa, eu resistia, mas acabava por me render ao capacho, limpando meus pés nele. Eu não estou bem certo, mas começo a pensar que eu me tornara capacho do capacho daquela mulher! Sim, é bom que eu esclareça que o capacho era dela mesmo: ela trouxera consigo numa sexta-feira de pouca chuva, alegando que o mal tempo poderia sujar a casa! E eu… veja bem…  não tenho certeza, mas começo a achar que ela estava falando que o mal tempo era o meu mau humor e que sujar a casa significava colocar a nossa história de amor em risco… É… eu nunca antes pensei que isto seria possível… como? Ela é servil demais pra cansar do que quer que seja!

     Ainda no sábado, depois de saciar a minha fome de comida, ela saciava todas as minhas vontades. O que não era suficiente para que eu saciasse a sua de ser convidada pra sair à noite para passear. Depois do banho à tardinha, ela normalmente vestia um vestido a realçar a sua feminilidade e me lançava um sorriso proposital. Hoje não, tô cansado… – eu dizia. Então, ela dava um outro sorriso, pegava a sua bolsa e caminhava  altiva em direção à porta. Eu ainda esperava que esta se fechasse, para então pular desajeitado do sofá e correr atrás daquela mulher, vestindo qualquer roupa e os chinelos de sempre.

De volta à casa, ao quarto, à cama e ao amor, eu tirava aquela máscara de mal humorado que usava todas as vezes que saía ao seu lado, e me despia por inteiro àquela mulher. E eu já tenho quase certeza que ela, por ter me visto tantas vezes despido e de cara lavada, deva me conhecer melhor do que eu a mim mesmo!

Então, depois do sábado com ela, o domingo chegava… a janela do quarto era novamente aberta, a trepadeira novamente lhe cumprimentava e ela novamente sorria. Era servidão demais pra uma mulher! Deus de Abraão, como era… E o domingo com ela chegava ao fim, trazendo-me o convite para encher a cara no dia seguinte!

Oh, céus! Um homem que bebe às segundas não é um homem, é um rato! Então, depois de sua partida definitiva, com aquele sorriso tranquilo em seu rosto depois que ela me disse eu não te amo mais… , eu resolvi beber todos os dias. Porque, oh céus… um homem que bebe todos os dias não é um rato, é um homem angustiado! Sim…  sou um homem angustiado…  e eu até tentei, mas a trepadeira não responde aos meus bom dia…  e o capacho da sala continua a me fazer de capacho do capacho daquela mulher!

CLÉLIA GORSKI

JORNALISTA E AUTORA DOS LIVROS “SEPARADA & DIVIDIDA” E “ANA: SUA HISTÓRIA PODE SER OUTRA HISTÓRIA

 

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WhatsApp Image 2017-09-25 at 12.54.05 PMANA: SUA HISTÓRIA PODE SER OUTRA HISTÓRIA

Ana é uma cineasta na faixa dos 30 anos que enfrenta um grande dilema: manter seu emprego numa produtora de vídeo, apesar da frustração de não ver perspectiva de realização profissional, ou dar vazão a sua voz interior que a cada dia vem ditando o comando de conhecer-se a qualquer custo, ainda que o autoconhecimento coloque em xeque todas as suas escolhas anteriores.

A viagem ao encontro de si mesma é o maior dos desafios: não estará ela ficando louca, uma vez que tudo ao seu redor parece tão perfeito aos olhos de outros? Ter um emprego seguro e um bom partido como futuro marido não são motivos de sobra para deixar tudo como está?

As vozes que Ana ouve em seu labirinto interior lhe dizem o contrário: adiante, você não tem nada a perder, Ana. Quando nos conhecemos, até nossas perdas são ganhos. As vozes de fora, no entanto, como a de seu namorado e de sua própria mãe, lhe asseguram: Ana, você vai se perder em si mesma!

Um personagem, que já não vive mais, pode ser sua única saída: ao abrir o baú de recordações de seu falecido pai, Ana encontra pistas que lhe indicarão que há mesmo perigos, o abismo é logo ali e ela esta prestes cair – ou nele, o que poderá ser uma viagem sem volta; ou em si mesma, o que será um convite para o despertar de uma nova vida…

ELA SE FOI COM SEU BALÃO DE SONHOS

Back of happy young asian couple holding balloon and walk togeth<a href=”http://www.freepik.com/free-photos-vectors/birthday”>Birthday image created by Jcomp – Freepik.com</a>

 

Ele cortou o laço que os unia com a faca afiada da traição.

Ela sentiu o golpe e voou para bem longe, até perder de vista.

Quem sabe more agora em seu próprio castelo, construído com as pedras preciosas de seu coração…

Eram preciosas! Ele as perdeu… todas!

E agora olha pra um céu vazio, sem a menina que costumava voar a sua volta, sempre rindo à toa de seu colar pesado de adereços: ciúmes, orgulho, egoísmo, avareza, avareza, avareza…todos tão pesados! Não poderia ter ele trocado por amor? Só amor?!

E ela jamais imaginou, do alto da alma que ama, que um dia seria alvejada por ter seu amado estes defeitos… Ora! Veneno se não mata, fere!

Agora, ela voa em nova dimensão com seu balão de sonhos.

E ele segue na escuridão da sua consciência… sob o peso de suas mentiras e falsas promessas.

Será que ao descobrir que é capaz de amar sem condições, ele também voará e a encontrará?

Será?

Oh! Como são tristes algumas histórias de desamor.

Mas, oh, como lindas todas as de amor!

Clélia Gorski – Jornalista e autora do livro “Separada & Dividida”

Nobres casais e sua colcha retalhos

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Foto: By Pete Souza (White House (021913PS-0395)) [Public domain], <a href=”https://commons.wikimedia.org/wiki/File%3AMichelle_and_Barack_Obama.jpg”>via Wikimedia Commons</a>

Numa época em que as relações são descartáveis, amores fracos não toleram mais as pizzas das sextas à noite, os filmes nos sofás e o compartilhar, surge um homem chamado Barack Obama! Alguém aí acredita que a dupla Obama-Michelle não tenha os seus perrengues e que é o cafona-glamour-ostentação que sustenta a felicidade do casal? Pois eu posso apostar que é ali no dia a dia, entre perrengues saudáveis e privações e provações cotidianas que este amor se sustenta (repare na troca de olhares!). O resto é diversão . Necessária, vital e boa, mas diversão. Claro, todos adoramos, não? Afinal, a vida também é feita de diversão. Mas sempre com amor, por favor!

Enfim… e sim: Barack Obama é um nobre HOMEM e Michelle LaVaughn Robinson Obama, uma grande MULHER (nobres homens valorizam grandes mulheres!). Juntos, tecem a colcha que só Deus e eles sabem de quais e quantos retalhos compõem e o quanto os aquece (ainda que às vezes possa ficar um pezinho de fora e eles passem um pouquinho de frio. Coisas de casal…).

Por fim … e, de novo, sim: um brinde aos amores fortes e aos nobres casais!

Clélia Gorski – Jornalista e autora do livro “Separada & Dividida”.